Faturação, lucro e dinheiro disponível: porque não são a mesma coisa

"Faturei muito este ano. Como é que não tenho dinheiro na conta?"
É uma das perguntas que mais ouço no meu dia a dia como contabilista certificada. Foi também o tema que deu título à entrevista que dei à Revista Pontos de Vista, na edição 154 (outubro de 2026), dedicada à saúde das empresas. Disse lá, e repito aqui, que um dos erros que mais encontro é confundir faturação, lucro e dinheiro disponível.
Três números, três histórias diferentes
A faturação diz-nos quanto vendemos. É o valor dos bens ou serviços faturados num período, sem IVA. O IVA que consta da fatura não é da empresa: recebe-se do cliente, mas é para entregar ao Estado.
O lucro diz-nos quanto ganhámos. É o que sobra da faturação depois de deduzidos os gastos: fornecedores, salários, rendas, seguros e também o desgaste dos equipamentos, as depreciações. É o indicador que mostra se o negócio é rentável.
O dinheiro disponível diz-nos com quanto podemos contar hoje. É o que está efetivamente no banco e em caixa. Aqui, o que conta é o momento em que o dinheiro entra e sai, e não o momento em que se vende ou se compra.
Como uma empresa com lucro pode ficar sem dinheiro
Imagine uma pequena empresa de serviços que, num ano, faturou 150 000 € e teve 120 000 € de gastos. O lucro antes de impostos é de 30 000 €. À primeira vista, um bom ano.
Mas no fim do ano os clientes ainda devem 25 000 €. A empresa comprou uma carrinha de 20 000 € a pronto, embora no lucro desse ano só tenha entrado a depreciação, de uns 5 000 €. Amortizou 8 000 € de capital de um empréstimo, o que não é gasto, mas sai do banco. E o IRC sobre o lucro, tal como os pagamentos por conta, será pago mais tarde.
O resultado é uma empresa rentável com pouco ou nenhum dinheiro disponível. É assim que muitos negócios saudáveis chegam a ter dificuldades de tesouraria.
O contrário também acontece. Ter saldo na conta porque os clientes pagaram adiantado, ou porque ainda não chegou o prazo de entrega do IVA, não significa que a empresa esteja a dar lucro.
O que fazer na prática
Acompanhe os três números. Faturação, lucro e tesouraria devem ser analisados com regularidade, e não apenas no fecho de contas. Os números devem servir para tomar decisões, e não só para cumprir obrigações.
Ponha de lado o que não é seu. O IVA liquidado e os impostos que vão ser pagos devem estar reservados. Muitos empresários criam uma conta bancária só para esse fim.
Fale com o contabilista antes de decidir. Antes de comprar um equipamento, contratar alguém ou alargar os prazos de pagamento a um cliente, uma conversa atempada pode evitar muitos problemas. Na TaxConsultadoria, é assim que gosto de trabalhar: conhecer cada negócio e acompanhar o empresário nas decisões, e não apenas depois delas.
Leia a entrevista completa
Na entrevista à Revista Pontos de Vista falo também sobre os indicadores que uso para avaliar a saúde de uma empresa, a importância de trabalhar com cenários e o papel que a tecnologia e a inteligência artificial vão ter na contabilidade. A entrevista está nas páginas 10 e 11 da edição 154, em digital e nas bancas.
Se este tema o fez pensar no seu negócio, fale comigo.
Patrícia Ventura, Contabilista Certificada (OCC n.º 86518), TaxConsultadoria

